"Alice certos dias parecia impregnada
de algumas manias estranhas, envolvida em alguns pensamentos súbitos e incontroláveis.
Se se senta em segundos se levanta e se anda de um lado para o outro dentro do
quarto ele começa a ficar pequeno, e se se lança na rua ela já lhe parece muito
familiar. Olha de repente para a calçada do outro lado e eh ele que a atrai,
mas chegando lá parece que não faz diferença alguma e precisa de uns passos a
mais. Dizem sempre que Alice tem mania de atravessar ruas, se acompanhada olha
para o outro lado e de impulso pega a pessoa pelo braço e diz: - Vamos! Mas
para mim Alice tem é mania de atravessar a vida em mergulhos que a levam de uma
extrema realidade ao sentido puro e esse pequeno mundo parece que não a
comporta, ela precisa sempre de mais espaços e sempre de mais um passo. Com que
propriedade digo isso? Acredito ter propriedade para dizê-lo, mas um achismo
daqui ou dali. Julgue depois que conhece-la, mas talvez jamais consiga sê-la,
não por muito tempo.
Então vamos lá, te explicarei do
que falo. Uma noite sem querer encontrei Alice caminhando lá pela Afonso Pena, como
faz vez por outra, a e como faço vez em sempre. Acompanhei seus passos que às
vezes se tornavam acelerados como se para fugir de algo ou para expurgar algo
de dentro de si, mas de repente se tornavam lentos como que por distração com o
mundo que passava a sua volta. Num desses momentos de distração e num súbito
esbarrão eu e Alice, ali naquela pista nos tornamos uma só. Não sei como
explicar o que aconteceu naquele dia, mas foi como se conseguisse pensar seus
pensamentos e olhar através de seus olhos. Alguns podem ter diversas
explicações místicas e religiosas, ousaria até dizer que me parecia uma possessão,
mas achei melhor descrever tudo com a palavra “Encontro”.
Alice me proporcionou uma
oportunidade única. Caminhamos em silêncio por alguns minutos, lado a lado,
naquela pista e de repente meus pensamentos pareciam insuportáveis, não cabiam
mais dentro de mim, não conseguia dar fluidez e nem perceber seu fluxo. Tudo
que para mim era tão comum e rotineiro naquelas mesmas pessoas com seus
cachorros e naquele mesmo lugar, se tornou encantador. Consegui perceber cada
detalhe, não sei até hoje como me dei conta de tantos detalhes, pois além deles
pensava em infinitas coisas. Andava lentamente, percebendo tudo em volta, e
pensando também em toda minha vida, vida dela que estava em mim, em todas as
decisões a serem tomadas ou em não toma-las e se elas eram sãs ou insanas, e se
era possível suportar minha insanidade dentro do meu mundo, ou se esse era o
meu mundo.
E enquanto isso, cachorros
grandes, pequenos, soltos, presos, levavam suas famílias para passear, às vezes
a companhia era jovem, às vezes era velha e eles promoviam encontros, puxavam
seus donos pela corrente em direção ao outro que também estava solitário.
Percebi um grupo que parecia saído de um filme de ficção científica, ou de uma
festa a fantasia mesmo uns de cabelos roxos, outros amarelos. Tinham os
favelados e pobres, fazendo a algazarra, tinha os amigos tocando violão, mais
ali na frente um grupinho parecendo usar crack, na outra virada uns playboys fumando
maconha, no banco do lado direito mãe pai e olhando o filho de bicicleta, no próximo
um casal namorando, no outro uma tribo de adolescentes penteando cabelo, cada
um mais diferente do outro. Tinha a parte do parque, a parte do campo de
futebol, a parte do cercadinho para cachorro, tinha as barraquinhas dos mais
diversos tipos de comida, gente entrando e saindo do metrô e também tinha como
uma estátua imóvel um policia, um só policial que olhava tudo. E não só via
imaginava o que cada um falava e pensava. E a cabeça borbulhava, borbulhava e
borbulhava. A sensação eh que não daria conta, ou explodiria ou sutaria com tudo
isso.
Alice então ainda sem dizer nada
me segurou pela mão e fez com que acelerasse os passos. E quando fiz isso pude perceber meus sentidos
mais aguçados, podia sentir o vento batendo na pele e apesar de manter os olhos
abertos parecia que deixei de ver para fora via para dentro. Sentia os pés
tocando no chão, o ar entrando nos pulmões, o ritmo das passadas e das batidas
do coração. A mente esvaziava-se naquele momento e era um alivio. Não conseguia
pensar, só conseguia sentir e parece que nessa tremenda fluidez me desfiz e me
tornei, me tornei com o mundo uma só coisa. E quando não me continham mais e a
sensação era de desintegração total onde minhas moléculas se misturariam com as
do ar e eu seria somente fluxo de vida, Alice largou minha mão. Olhou-me com
olhar de despedida e sem mesmo falar atravessou a rua e não me puxou pela mão. Deixou-me
ali extasiada e de volta em mim. Não pude mais ser Alice, mas também nunca mais
pude ser eu."